Cerca de ¼ da população brasileira sofre de intolerância à lactose (IL), de acordo com a Sociedade Brasileira de Alimentação e Nutrição (SBAN), mas muita gente a confunde com alergia à proteína do leite.

Na verdade, a IL é a dificuldade de digerir a lactose, que é o “açúcar” do leite. Sim, laticínios (leite, queijos, iogurtes, creme de leite, leite condensado, entre outros) além de proteínas, gorduras, minerais, vitaminas também têm “açúcar”.

Para este “açúcar” ser adequadamente absorvido, precisa ser digerido por uma enzima chamada lactase, que está localizada em nosso intestino. Assim, alterações que ocorrem no intestino podem mudar a capacidade de digerir a lactose, caracterizando o quadro de IL.

Quatro dicas para quem tem intolerância à lactose amenizar os sintomas

  1. Procure no mercado enzimas que auxiliam na digestão da lactose. No entanto, elas não devem ser usadas diariamente. É preciso ter consciência de que mudanças alimentares serão necessárias;
  2. Preste atenção à lista de ingredientes dos produtos na hora da compra. Muitas vezes a lactose está “escondida”, por exemplo, na forma de leite em pó.
  3. Alguns medicamentos também possuem lactose em sua composição e, em indivíduos muito sensíveis pode ser que esta ingestão contribua para os sintomas;
  4. De uma forma geral, quanto maior o teor de gordura dos laticínios, menor é o de lactose;

Entenda a intolerância à lactose

A nutricionista Ana Poletto explica que existem três tipos de deficiência da lactase: congênita, primária e secundária. A congênita é muito rara e se caracteriza por um teor muito baixo ou ausência da lactase. Neonatos, recém-nascidos podem apresentar sintomas como distensão abdominal, vômitos, diarréia líquida, volumosa e de odor ácido, dermatite perianal e até parada do crescimento se o leite for mantido. Se não diagnosticada, esta IL pode evoluir para desidratação e até morte.

A IL primária, também conhecida como hipolactasia primária, está associada à presença de um polimorfismo genético (SNP), ou seja, “alteração”, no gene MCM6. Já a IL secundária está relacionada a alterações permanentes na “parede” do intestino como doença celíaca ou alterações transitórias como parasitoses, infecções virais, entre outras.

Os sintomas mais comuns em adultos são gases, dor, cólicas e distensão abdominal, diarréia osmótica e dor de cabeça. Mas a IL é uma condição muito pessoal. Ou seja, cada indivíduo possui diferente capacidade em digerir a lactose e pode apresentar diferentes sintomas e intensidades. “Podemos dizer que não são todos os indivíduos que se sentirão bem, consumindo a quantidade de 12g de lactose por dia, considerada aceitável por todos, mesmo os intolerantes”, explica Ana Poletto.

Para saber você tem IL é preciso procurar uma equipe profissional qualificada para a análise, pois, além de exames bioquímicos como o teste de tolerância a lactose, há necessidade de analisar os sintomas apresentados pelo paciente.

A análise genética do polimorfismo no gene MCM6 pode ser solicitada como adjuvante à análise. Segundo alguns estudos, em decorrência da grande miscigenação na nossa população, utilizar unicamente este exame para diagnosticar a IL pode não ser definitivo.

Abaixo uma tabela que pode auxiliar a saber a quantidade média de lactose nos alimentos:

Produto Quantidade média g ou mL Quantidade média de lactose (g)
Leite 250 mL 13g
Iogurte com baixo teor de gordura 150-300mL 10-20g
Iogurte grego com baixo teor de gordura 150-300mL 5-10g
Queijos Muçarela, Brie, Cheedar, Parmesão 50g <1,2g
Queijo cottage 100g 3g
Queijo ricota 100g <1-6g
Sorvete 100g 14g
Manteiga 1 colher (sopa) <0,1g

Fonte: Adaptado – National Dairy Council

 

Dra. Ana Poletto é formada em Nutrição pela Universidade Estadual do Centro Oeste do Paraná e possui mestrado e doutorado em Fisiologia Humana pelo Instituto de Ciências Biomédicas da Universidade de São Paulo (USP). Atua como nutricionista clínica, palestrante em congressos e eventos e é docente em cursos de pós-graduação em Nutrição Clínica, nas áreas de Genômica, Endócrino e Bioquímica. Possui trabalhos publicados em revistas internacionais e nacionais e participa ativamente de congressos no Brasil e no exterior.